
É curioso que me sinta um pequeno monstro quando deito um pouco de carne á minha boca. Talvez um dia me consiga tornar um complexo vegetariano sem ponta que se lhe pegue. Não sei se é a minha consciência que me atropela sempre que a memória lembra-me o sofrimento de um qualquer animal, mas cada vez sinto mais compaixão com os animais.
Neste fim-de-semana fiz me pescador de rio e como a primeira experiência é um marco importante levei comigo a maquina fotográfica desejosa de tirar partido daquele momento único. Quando capturei o pequeno peixe ele parece que olhava para mim com cara de embaraço provocado talvez pelo medo duma mais provável morte. Aqueles olhos tocaram-me como talvez nenhum animal o tinha feito até então. Nem cão nem gato transportam em si tanta angústia ou sofrimento perante a dor como um peixe (visto por mim).
Fiquei imobilizado á olhar fixamente para os olhos deste e pensei para mim com cara de juiz, como posso eu apanhar um peixe com um olhar tão acusador e ao mesmo tempo tão assustado. Perguntei á pessoa que me acompanhava como o podia soltar de novo para seu lugar. Com um ar de troça disse que mesmo esses pequenos peixes eram bons para colocar na cova do dente, e que não valia a pena o deitar de novo para o rio.
Ora era completamente impossível no meu estado natural de sanidade colocar fim aquela vida, debrucei-me sobre a margem do lago e sem que ninguém suspeitasse coloquei-o de novo na agua. Naquele instante parece que tinha efectuado a boa acção do dia, foi como dar a mão a um cego para atravessar uma rua ou ajudar uma velhinha com as compras na mão. Peixe esse que parece-me que agradeceu de forma efusiva ao voltar ao meu encontro naquela mesma tarde, e perguntam-me como é que o reconheci e eu respondo...”Pelos Olhos”.
Pelo menos fico com a certeza que aqueles olhos vão acordar mais um dia, e se me recordar dele será quando ler o meu próprio horóscopo. Fica bem querido peixe...