
“São estas fotografias a preto e branco que me fazem voltar a sonhar, agora depois destes longos anos sei finalmente que é da Júlia que gosto. Decidi escrever esta carta para que a minha consciência fique limpa de vez, Antes que a memoria não me atraiçoe resolvi colocar numa mísera folha de papel todos os anos dum amor impossível. Tenho agora sessenta e quatro anos e tenho uma doença fatal com um destino traçado desde o passado mês de Janeiro, maldito este tabaco que me fez perder anos de vida sedentária na minha cadeira de madeira. O amor foi para mim a única riqueza que me fez agradecer a minha existência, apesar de não a ter passado com a mulher que sempre amei, a Júlia um dia lá nos céus nunca me ira perdoar senão a tivesse a honrar agora nestes instantes. Pois foi com ela que partilhei os melhores momentos da minha vida, foi sempre a Júlia que eu imaginava quando fazia amor com a minha mulher, era sempre a Júlia que me vinha a cabeça quando me perguntavam qual era a mulher da minha vida. Pobres jovens que pensam que o amor nasce duma conversa dum mundo virtual como a Internet, Pobres mentes aquelas que pensam que o amor nasce numa primeira cambalhota nocturna. Agora que sei que a morte me espera e que não há possível abrandamento nesta estrada, só me resta pedir perdão á vida por ter desejado mais do que ela me podia oferecer, se a vida me perdoar poderei partir com a consciência tranquila e rejuvenescida, própria de quem voltou a conquistar um sorriso que tinha por perdido por longos anos.
Tenho já idade para ter juízo como dizem os meus netos quando resolvi programar uma mini reunião de família, em que anunciei a minha doença terminal. Todos os meus filhos choraram compulsivamente, os meus netos não se aperceberam de declaração e inocentemente continuaram a brincar com uma bola que lhes tinha oferecido pelo natal. Nessa reunião também afirmei que iria escrever esta carta de despedida e que nada me podia mudar de ideias, já que nesta vida nunca tive oportunidade de provar a minha coragem perante a minha cara-metade, tenho agora oportunidade de faze-lo depois de morrer…
Santa Júlia que estais no céu perdoai-me esta farsa romântica que foi a minha vida com a minha mulher, tu que sempre me aconselhaste a divorciar-me dela sem nunca pedires o meu amor em troca. Perdoa-me este erro que mudou para sempre a minha vida”.
Assinado: Gustavo de Sousa Mello.