
Debrucei-me sobre a mesa de jantar, naquela altura já faltava pouco para o momento mais esperado da noite. A minha mãe tinha-me levado para uma casa suspeita, com gente muito estranha, mas não podia sequer abrir a boca para reclamar naquela noite, pois mais altos interesses materiais se levantavam. Só mais tarde vim a descobrir que a noite de natal serve inclusivamente para reunir famílias cada vez mais distantes neste mundo, o natal para mim só tinha significado se houvesse uma doce prenda para desembrulhar.
Os meus novos amigos brincavam vaidosos com os seus novos brinquedos facultados por um dinheiro difícil de conquistar, dificilmente passará pela cabeça daquelas crianças quantas horas de trabalho árduo resultaram num bocado de plástico colorido feito prenda. Eu cá por mim já ficava contente com um daqueles carrinhos pequenos da Matchbox, por mim já era suficiente para passar tardes e tardes sem emitir um único ruído. Para a minha Mãe era enriquecedora esta nova experiência, carrinhos em troca dum silêncio matinal. Quando cresci renovei a minha frota automóvel e até construí uma garagem feita com pauzinhos de gelado. Aprendi que um dia mais tarde somos responsabilizados ao ponto de nos pedirem para sermos gentis com o próximo.
A desconfiança em nós é tal que nos dizem que temos de acabar a escola para sermos alguém neste mundo, curioso o facto de eu me sentir já alguém e não sequer ter chegado a metade do ensino secundário.
Os votos de prósperos anos novos são renováveis de ano a ano, parece inclusive que temos um gravador na nossa cabeça nesta época nesta quadra, parecemos todos mais simpáticos e educados, até que o perigoso stress volta a apoderar-se de nós. Sempre sonhei que o Pai Natal existia e que descia pela minha chaminé para me entregar as prendas, essa imaginária personagem ainda permanece dentro de mim como que a questionar a minha própria imaginação.
Assim sendo pode o natal ser uma fuga para esquecer algo que nos apoquenta, será que esta quadra serve para desviar atenções de algo que não desejamos que aconteça?...Então que o natal seja mesmo todos os dias, pois estamos fartos de constantes desilusões…